A ‘Agenda do Cinema’ foi dos primeiros projetos que desenvolvi na Câmara do Porto. Em 2014 parecia-me absolutamente óbvia a necessidade de se tornar mais visível e interligada (a partir de um instrumento público, prático e simbólico) a programação de cinema da cidade: que não era escassa, nem amorfa, ao contrário do que a possibilidade de acesso às salas insinuava. O encerramento do Nun’Álvares, em 2005, foi uma espécie de marco fúnebre no processo de encerramento radical das salas de rua, mas simultaneamente o prólogo de uma carência potentemente dinamizadora de novos projetos de programação. Muitos deles (forçosamente) semi-informais e militantes. Foram muitos os “agentes” que se opuseram, através de distintas práticas programáticas, à inevitabilidade da exibição em shoppings, batendo-se por uma ideia de cinefilia poética (cujos públicos atestaram A AGENDA DO CINEMA que não era o mesmo do que uma cinefilia utópica ou parvamente romântica). Tudo isto pareceu também cristalino ao Paulo, que abraçou e lançou de forma radiante a iniciativa. Cúmplices foram o Carlos Mesquita e a Maria João Macedo, os designers que convidámos (continuando a parceria que tínhamos na programação de cinema fora do país), e a Patrícia Campos que defendeu o projeto com resiliência e a quem devemos a sua manutenção ao longo do tempo. Em cinco anos a cidade conseguiu estabelecer múltiplos novos vínculos com o Cinema – com novos espaços, ciclos, festivais e até medidas de acesso, como o cartão municipal ‘Tripass’. Decidimos assim interromper temporariamente a Agenda, para redefinir o seu formato no contexto atual. Pareceu-me então que a este texto, interinamente o último, poder-se-ia desculpar este tom: nostálgico, afetivo, mas que anuncia novas possibilidades. No fundo, sentimentos que muitos de nós procuramos no Cinema.

Guilherme Blanc

Diretor – Arte contemporânea e Cinema Ágora E.M.