Ir ao cinema

Sem soberba nem vergonha, durante a apresentação de uma das nossas sessões, o André Tavares confessou à plateia que, às vezes, tinha a sensação de que gostava mais de ir ao cinema do que propriamente do cinema. Mas se o que importa são os filmes e não a forma como a eles chegamos, que espécie de amor torto é este amor pelas salas? Ir ao cinema, para o que nos havia de dar. Com tantos macs, pêcês e têvês, mais as atribulações da vida e a meteorologia caprichosa, porquê sair de casa? Que obstinação nos empurra para as salas? Somos todos reféns da nostalgia ou anda aqui outra história? É verdade que os bilhetes são baratos, que o Passos Manuel fica no coração da cidade e é bem bonito, mas, ainda assim, custa a entender. Agora imaginem o que custa explicar. Foi aliás para fugir a esse problema que, há uns anos e sem grande alarido, criámos a milímetro, permitindo que as pessoas, em vez de se desafiarem a toda a hora para duelos teóricos sobre isto e aquilo, possam simplesmente dizer: “ontem, fui ao cinema”. Quando muito, alguém acrescentará: “eu fiquei em casa, estava um frio de rachar” (e se calhar até estava). Em 2010, assim que uma voz se erguia contra o fecho dos cinemas na baixa, havia logo quem abordasse o tema ainda com mais veemência, numa embaraçosa corrida pelo grande prémio da indignação, e também quem torcesse o nariz a essa luta: “O que interessa são os filmes. Não o lugar onde são vistos.” Toda a gente tinha razão e era tudo muito cinzento. Em 2014, apesar dos pessimistas de salão, já nem tanto. Pelo menos à quinta-feira, se o filme for bom. E mesmo que seja mau, que maravilha!

milímetro