UMA ERÓTICA DA OBSCURIDADE

Guy Bordin e Renaud De Putter têm desenvolvido um trabalho no limiar da antropologia e da etnologia, pensadas a partir do indivíduo e das narrativas na primeira pessoa. Assumido uma tonalidade ensaística que se manifesta, por exemplo, na problematização dos limites entre observação e construção ou das fronteiras entre realidade e projecção, os cineastas têm trabalhado temáticas ligadas à identidade, ao género, à alteridade, à memória e às possibilidades de restituir filmicamente os elos que ligam, sempre precariamente, todas estas substâncias instáveis.

Questões como a distância, o rasto, o apagamento traduzem-se, muitas vezes, num interesse biográfico por figuras da obscuridade, secundárias, ignoradas ou desprezadas pela história. Uma cantora canadiana do século XIX esquecida, travestis samoanos, os habitantes de uma pequena comunidade inuit do ártico ou personagens tão singulares quanto ordinárias da classe média europeia são alguns dos seres que povoam este universo.

À semelhança do que acontece no filme mais recente, L’Effacée (2017), a matriz documental que enforma toda a obra dos realizadores bifurca-se entre a ideia rousseliana dos “instantes decisivos”, nos quais o sentido de todas as coisas momentaneamente se revela, e a impossibilidade de conter a dissolução do que acaba de aparecer.

Antecipando o crescente interesse dos dois realizadores belgas pelo Porto (onde já filmaram), e mais ainda pelo Douro de Manoel de Oliveira (onde se prevê que venha, em breve, a ser rodado o filme que têm neste momento em preparação), esta retrospectiva (Ciclo de Cinema Guy Bordin e Renaud de Putter) será, por isso, a oportunidade para fazer um ponto de situação e entrar na intimidade de uma obra em pleno crescimento, nunca antes apresentada em Portugal.

António Preto

Curador