SEJAMOS REALISTAS, EXIJAMOS O IMPOSSÍVEL - (ALGUNS) GRITOS DE REBELIÃO NO CINEMA

L’art est comme l’incendie Il naît de ce qu’il brûle” Jean-Luc Godard, Histoire(s) du cinéma

Há 50 anos, o Maio francês invadia as ruas e a imaginação tomava o poder. A poesia cobria as paredes, onde floresciam os slogans de revolta contra a sociedade e a autoridade. Era proibido proibir. Se teve o seu quê de espontâneo, esta revolução adivinhava-se há algum tempo, e as artes, sobretudo o cinema – imagem matéria viva do mundo – anunciavam, já desde a década anterior, uma rebeldia em crescendo, de rapazes e raparigas que queriam libertar a sua voz, os seus corpos, as suas vidas. O primeiro filme deste ciclo, “Blackboard Jungle”, chegou a ser alvo de censura, pois criava o pânico nos cinemas: logo a abrir, estimulados pelo som de “Rock Around the Clock”, os adolescentes levantavamse das cadeiras e dançavam numa espécie de êxtase. Godard já prenunciava aquele Maio desde o início (ele mais que os outros da Nouvelle Vague) e dele veremos “Weekend”, espécie de “Apocalipse Now” de uma sociedade burguesa em desagregação (apud João Lopes): “C’est vrai ou c’est un cauchemar?”. Outros proscritos deambulam por aqui, estendendo a vida desesperada / entre o tudo e o nada (Cesariny a propósito de Rimbaud, ao qual Carax vai buscar o título do seu filme: Mauvais Sang), deslocando-se para fora de si e dos sítios por onde passa (Fernando Guerreiro sobre Wanda), ou, com uma dose de humor negro, num filme à la Corman, os fugitivos de “Ata-me!”, de Almodóvar (“Marina: Tu nunca fugiste de casa? / Ricky: Não, porque nunca tive casa.”). Sauve qui peut (la révolution).

Feira do Livro do Porto