Olhares Elementares

A natureza e o cinema partilham um entendimento invulgar. É da natureza do cinema a busca de uma natureza das coisas, do tempo e do mundo. O cinema tem essa dimensão natural também porque veicula uma ideia de comunidade a quem o vê, associado que está à própria natureza das pessoas e à sua perceção. “O cinema tende a ser uma natureza”, palavras de João Mário Grilo a propósito de O Fim do Mundo, um dos filmes deste programa, subordinado ao tema Os Quatro Elementos. Colocar uma natureza (o cinema) face a outra natureza, consubstanciada nos seus constituintes essenciais – terra, água, ar, fogo – é o que este ciclo propõe. Cada elemento, enquanto matéria que simultaneamente divide e une, encena-se nestes filmes convocando e interrogando o próprio homem. Em cada um deles, os elementos são algo que as personagens vivenciam e não apenas algo que elas observam. Por isso, perpassa por estes filmes uma ideia de fim de um mundo (porque nada é dado em definitivo) e de princípio de um outro. Nessa passagem, cada elemento, pelo seu carácter mutante e conflitual, é igualmente uma espécie de câmara de ecos dos desejos e t(r)emores das personagens. A natureza é uma cadeia constante, uma unidade ativa, tal como o cinema, e cabe a este devolver, reinventando-as, essa história natural e essa cosmogonia.

Medeia Filmes / CMPorto