RETROSPECTIVA JOSÉ ÁLVARO MORAIS

SERRALVES

O Museu de Arte Contemporânea de Serralves apresenta em Julho a primeira retrospectiva integral de José Álvaro Morais no Porto. Poucos foram os autores que conseguiram representar o país de forma tão livre e luminosa. Projectando a Norte imagens do Sul, a retrospectiva decorrerá ao ar livre, e constituindo uma oportunidade única para redescobrir um cineasta maior.

José Álvaro Morais é um dos cineastas mais representativos da geração que, na senda do “Novo Cinema Português” da década de 1960, actualiza olhares interrogativos sobre a portugalidade. A sua obra, realizada toda ela já em democracia, inicia-se com duas encomendas para a televisão, Domus de Bragança (1975) e Cantigamente (1976), que evidenciam o interesse pela montagem. A confirmação de uma linguagem própria passaria, igualmente, por filmagens rápidas, como em Ma Femme Chamada Bicho (1976), retrato de Maria Helena Vieira da Silva rodado em apenas cinco dias; ou, inversamente, por processos de escrita que exigem uma longa maturação, como em O Bobo (1987). A fase final da obra afirma uma intensidade solar de “cinema do sul”. Zéfiro (1994), Margem Sul (1994) e Peixe Lua (2000) são filmes-viagem que pensam o país meridional enquanto lugar de cruzamento de culturas. A viagem e o exílio, as raízes familiares e o espírito do lugar, a tensão entre pertença e evasão são pontos de fuga a que regressa em Quaresma (2003). Neste seu último filme, situado entre a casa dos avós, na Covilhã, e as frias paisagens da Dinamarca, enterra-se definitivamente a melancólica questão, pessoal e nacional, que atravessa toda a sua obra: o magnetismo de um país que atrai tanto quanto repele.

António Preto

Curador