EUROPA 61: o cinema europeu no Porto

A encruzilhada em que a Europa se encontra parece o momento oportuno para que a velha utopia de união seja interpelada: existimos verdadeiramente enquanto europeus?

A memória comum é um dos principais fatores de identificação cultural coletiva. Num movimento retrospetivo que parta do curto prazo para a memória histórica de longa duração, dificilmente um europeu contemporâneo poderia deixar de se rever no recente aumento da entrada de migrantes; na mais recente crise financeira mundial, que obrigou a intervenções externas de consequências demolidoras para as populações; nos casos de passados menos nobres de figuras públicas, em especial no que toca ao colaboracionismo com os nazis; nas intervenções estrangeiras musculadas do outro lado da cortina de ferro, como em 1968, quando os tanques soviéticos foram chamados a intervir para esmagar a Primavera de Praga; no conflito que, durante décadas, assolou a Irlanda do Norte, opondo duas comunidades religiosas, fazendo ecoar nos nossos tempos as trágicas guerras de religião que devastaram a Europa no século XVI; ou nas ideias de democracia e liberdade que levaram à Revolução Francesa e que alastraram como um rastilho a todo o continente.

De tudo isto falam os filmes que selecionamos para esta Semana do Cinema Europeu organizada no Porto. São 14 longas-metragens, às quais se somam quase outras tantas curtas apresentadas em dois programas autónomos, que celebram a vitalidade do cinema europeu e cujos temas e formas, ao refletirem valores e estilos em que o cidadão se reconhece, podem contribuir para o debate sobre o projeto político europeu. O título escolhido para as agrupar ao longo desta semana, EUROPA 61, ecoa um dos filmes fundadores do moderno cinema europeu, Europa '51 de Roberto Rossellini, e faz referência à idade que a União Europeia comemora este ano.


Carlos Nogueira
Programador